AS TRÊS VELHAS
Uma viúva tinha uma filha muito bonita que agradava a
toda a gente. A viúva queria casar a filha com homem rico e para isso fazia o
possível para conseguir um genro de posses. Na esquina da rua onde moravam as
duas tinha uma casa de comércio cujo dono era solteiro e cheio de dinheiro. A
viúva fazia as compras nessa casa e vivia estudando um meio de conseguir fazer
com que o homem conhecesse e simpatizasse com sua filha.
Um dia ouviu o rapaz dizer que só se casaria com uma moça
trabalhadeira e que fiasse muito mais do que todas na cidade. A viúva comprou
logo uma porção de linho, dizendo que era para a filha fiar, e que esta era a
melhor fiandeira do mundo.
A viúva chegando a casa entregou o linho â moça, dizendo
que teria de fiá-lo completamente até a manhã seguinte. A moça, que não sabia
fiar, começou a chorar, e foi sentar-se no batente da cozinha, rezando,
desconsolada da vida. Estava nesse ponto quando ouviu uma voz perguntar.
- Chorando por quê, minha filha?
Levantou os olhos e viu uma velhinha. Uma velha feia e
corcunda.
- E não hei de chorar? Minha mãe quer que eu fie todo
esse linho e o entregue todo pronto amanhã de manhã. . . Mas não sei fiar!
- Não se agonie, minha filha. Se você me convidar para
seu casamento e prometer que três vezes me chamará tia, em voz alta, darei uma
ajuda.
A moça prometeu. A velha despediu-se e foi embora,
deixando o monte de linho fiado e pronto. Como mágica. A viúva, quando achou a
tarefa pronta, só faltou morrer de satisfeita. Correu até a loja do negociante,
mostrando as habilidades da filha e pediu uma porção ainda maior de linho. O
negociante espantado pelo trabalho da moça não quis receber dinheiro pela
compra.
Vendo que as coisas se encaminhavam como ela desejava, a
viúva voltou a dar o linho pra a filha fiar até a manhã seguinte. Novamente a
moça se agoniou muito e foi chorar na cozinha. Estava nesse ponto quando ouviu
uma voz perguntar.
- Chorando por quê, minha filha?
Levantou os olhos e viu uma outra velhinha. Mais feia que
a outra e com a boca torta.
- E não hei de chorar? Minha mãe quer que eu fie todo
esse linho e o entregue todo pronto amanhã de manhã. . . Mas não sei fiar!
- Não se agonie, minha filha. Se você me convidar para
seu casamento e prometer que três vezes me chamará tia, em voz alta, darei uma
ajuda.
A moça prometeu e o linho ficou pronto num minuto. Como
mágica.
A viúva voltou correndo à loja do homem rico, mostrando o
linho fiado e gabando a filha. O negociante estava simpatizando muito com a
moça que fiava tão depressa e tinha tamanhas qualidades. A viúva voltou com uma
carga de linho enorme, entregando aquela penitência à sua filha.
Aconteceu como nas outras vezes. Apareceu uma velha que
perguntou:
- Chorando por quê, minha filha?
A moça levantou os olhos e viu uma terceira velhinha. Mas
essa era a mais feia das três. Tinha os dedos finos e compridos como patas de
aranhas.
- E não hei de chorar? Minha mãe quer que eu fie todo
esse linho e o entregue todo pronto amanhã de manhã. . . Mas não sei fiar!
- Não se agonie, minha filha. Se você me convidar para
seu casamento e prometer que três vezes me chamará tia, em voz alta, darei uma
ajuda.
A moça prometeu e o trabalho ficou pronto num piscar de
olhos. Como mágica.
Quando o negociante viu o linho fiado, pediu para
conhecer a moça, conversou com ela: e acabou falando em casamento. Como era
muito bonito e educado, a moça aceitou e marcou-se o casamento. O homem mandou
preparar sua casa com todos os arranjos decentes e encheu uma mesa de fusos,
rocas, linhos, tudo para que a mulher se ocupasse em fiar.
Depois do casamento, na hora da festa, estavam todos
reunidos e muito alegres, quando bateram palmas e entrou uma das três velhas. A
noiva correu logo dizendo:
- Que alegria, minha tia! Entre, minha tia, sente-se aqui
perto de mim, minha tia.
Assim que a velha sentou na cadeira, chegou a outra,
recebida com a mesma satisfação:
- Entre minha tia! Sente-se aqui, minha tia! Vai jantar
comigo, minha tia!
A terceira velha chegou também e a noiva abraçou-a logo:
- Dê cá um abraço, minha tia! Vamos sentar, minha tia!
Quero apresentá-la ao meu marido, minha tia!
Foram para o jantar e o marido e convidados não tiravam
os olhos de cima das três velhas que eram feias como o pecado mortal.
Depois do jantar, o marido não se conteve e perguntou por
que a primeira era tão corcunda, a segunda com a boca torta e a terceira com os
dedos tão finos e compridos. As velhinhas responderam:
- Eu fiquei corcunda de tanto fiar linho, curvada para
rodar o fuso!
- Eu fiquei com a boca torta de tanto cortar os fios de
linho quando fiava!
- Eu fiquei com os dedos assim de tanto puxar e remexer o
linho quando fiava!
Ouvindo isso o marido mandou buscar os fusos, rocas,
meadas, linhos, e tudo que servisse para fiar, e fez com que queimassem tudo,
jurando a Deus que jamais sua mulher havia de ficar feia como as três tias
fiandeiras por causa do encargo de fiar. Depois, as três velhas desapareceram
para sempre e o casal viveu muito feliz.
Fonte: http://augustopessoacontadordehistorias.blogspot.com/2009/08/conto-popular-as-tres-velhas.html
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